# Investigação expõe trituração de pintinhos na indústria de ovos

> A investigação da Mercy For Animals documentou a trituração de 35 mil pintinhos machos em um incubatório de grande porte no Sul do Brasil. A prática, comum na indústria de ovos, elimina animais sem valor comercial. A alternativa da sexagem in ovo permite identificar o sexo antes da eclosão, evitando o descarte.

*Digitorack · Dia de Sorte · 08 de setembro de 2026 · Élton Vasconcelos Pó*

Investigação da Mercy For Animals documentou a trituração de 35 mil pintinhos machos em um incubatório de grande porte no Sul do país. Entenda a prática e a alternativa da sexagem in ovo.

Uma investigação da organização Mercy For Animals (MFA) documentou a trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um incubatório de grande porte da indústria de ovos na Região Sul do país. Segundo a organização, aproximadamente 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade investigada. O nome da empresa foi mantido em sigilo.

Os pintinhos tinham menos de 24 horas de vida e eram colocados em máquinas com lâminas rotativas de alta velocidade. A prática ocorre porque os machos não põem ovos e, segundo a investigação, não apresentam características genéticas consideradas adequadas para a produção de carne. Na cadeia produtiva, eles são separados das fêmeas logo após o nascimento e destinados ao descarte.

A vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider, esclareceu que o objetivo não era investigar uma denúncia específica, mas documentar uma prática representativa de quase toda a indústria. "Os pintinhos recém-nascidos têm plena capacidade de senciência, o que significa capacidade de sentir medo ou dor física. Eles têm o sistema nervoso completamente formado", disse Luiza. O material aponta ainda que os maceradores mecânicos nem sempre provocam a morte imediatamente, o que pode prolongar o sofrimento. A investigação também registrou o descarte de fêmeas em menor número, quando apresentavam anomalias, deformidades, sangramentos ou nascimento prematuro.

## Sexagem in ovo: a alternativa já usada na Europa

Uma das alternativas apresentadas pela organização é a sexagem in ovo, tecnologia que identifica o sexo do embrião durante a incubação. Os ovos com embriões machos podem ser retirados antes da eclosão. A tecnologia já é utilizada em outros países. Segundo a Innovate Animal Ag, na União Europeia cerca de 130 milhões de um total de aproximadamente 340 milhões de poedeiras eram provenientes do método em junho deste ano. Alemanha, França, Áustria e Itália adotaram legislações que proíbem a trituração, enquanto Noruega e Suíça avançam para a eliminação da prática por decisão de mercado.

No Brasil, a primeira máquina de sexagem in ovo foi instalada em julho de 2025 no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada, interior de São Paulo. A iniciativa teve como cliente-âncora a Raiar Orgânicos, que possui cerca de 400 mil aves e se comprometeu a converter todo o plantel. Os primeiros ovos chegaram ao mercado em dezembro daquele ano. A adoção, porém, ainda é pequena. A máquina opera abaixo da capacidade, e o principal obstáculo é financeiro. O método convencional custa cerca de R$ 7 por ave, enquanto o adicional da tecnologia fica entre R$ 5 e R$ 10, um acréscimo de aproximadamente 80% a 150%. O custo pode ser diluído: uma poedeira produz cerca de 350 ovos no ciclo, o que equivale a poucos centavos por dúzia.

## Interesse do setor e pressão legislativa

Há sinais de interesse do setor. Empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin assumiram compromissos públicos de suspender a trituração, condicionados à existência de tecnologia economicamente acessível. Em agosto, um encontro nacional sobre sexagem in ovo reuniu representantes de empresas, produtores, instituições financeiras e órgãos públicos, incluindo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a Finep.

No Brasil, ainda não existe norma federal específica que proíba a prática, mas o tema chegou ao Congresso pelos PLs 783/2024 e 3034/2026. O primeiro, da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), passou pelas comissões de Meio Ambiente e de Agricultura, onde recebeu parecer contrário por questões econômicas, e deve seguir ao plenário. O segundo, da deputada Heloísa Helena (Rede-RJ), está em início de tramitação. A MFA pretende encaminhar denúncia ao Ministério Público.

Pesquisa da Innovate Animal Ag com 1.553 compradores mostrou que 73% se sentem desconfortáveis com o abate e 76% concordam que a indústria deveria achar alternativa. Entre eles, 79% demonstraram interesse em ovos produzidos com sexagem in ovo, e 76% disseram estar dispostos a pagar mais, com média de R$ 3,87 por dúzia. Para Luiza Schneider, a falta de informação explica a pouca pressão social. "Há um desconhecimento da população em relação a algumas práticas dessa indústria. Então, há pouca mobilização para que elas não aconteçam."

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Fonte (canonical): https://digitorack.com.br/dia-de-sorte/investigacao-expoe-trituracao-pintinhos-industria-ovos/
